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Sobre os desencontros

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Quem dera fosse... Um clarão na noite escura, Para romper as conjecturas inúteis Da imposição inquieta e absurda, Destes opostos a semear lonjuras.
Quem dera fosse... Aquele alforje de pedras, o bodoque moleque Para quebrar as vidraças que lhe impede o sol Adentrar a alma farta de sombras, Onde arde a angústia atrás de um leque.
Quem dera ser... O verso de luz a abrir-lhe a cortina Invadindo as esquinas sem lua Das suas ruas desertas E encontrar ali aquela menina.
Quem dera seria... A carta de alforria nestas vias abastadas de utopia A fantasia de luz que falta as suas calçadas Onde torces o pé tentando caminhar, Sem a luminescência abissal da poesia.
Pondero... Ser aquele grito abortado Incauto, calado pelo silêncio da boca, Onde as mãos desenham saídas Quase sempre perdidas Além da folha de papel pautado, Onde escrevo minhas rotas de fuga.
José Regi

Obra inacabada

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A pureza da pipa colorida Pela ingenuidade empinada Buscando equilíbrio no vento...
A crueldade do anzol que Aprisiona e encarcera, Limitando o nadar do peixe n’água...
A inquietude do pássaro Cerceando o direito ao céu Voando baixo no entorno da armadilha...
Os bichos assustados Com o barulho sem sol De um amanhecer chuvoso...
Nada de novo, de novo, Nesta peça ensaiada Executada como rotineira imperfeição.
Esta construção descomunal Em se tornar o colosso exemplar, Referencia de ninguém.
Somos uma base sobre a areia... Na beira do mar tomba, arqueia, Desmorona como um castelo de nuvens.
Às vezes temos asas Noutras vezes rastejamos. Mas nas vezes que voamos Desejamos o pouso.
Onde pisas E deixa rastros Deixa um pouco do seu cheiro.
Viajante, passageiro... Sendo flor de outro janeiro Que entrou em fevereiro por teimosia.
És um jardim de folhas secas Embrionado renascer, Ainda por vir...
Enquanto hiberna o broto em preto e branco. Nas cores de um foto dissonante e sem foco Das viagens…

O rito do fogo

Vestida de si, de cheiros. Sedas e transparências, Se desnuda em pelo Ao apelo da carne... Sede.
Doce cadência Nefasto Beijo Fogo na boca Lascívia, desejo.
Volúpia adensa Ardência Encandeia alma Sussurros gemidos.
Na pele feromônio Exala entrega Suor, sua senda... Alcova.
Tenra maciez ao toque Devorador das mãos, Rende-se anarquia da Contumaz sedução.
Onde o verbo e carne Se funde na alquimia do gozo, No orgástico encontro Inconsciente no sonho.

Claustro

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A menina vestida de céu
Procura uma rota de fuga
Longe que seja ao léu
Ou para onde não se conjuga. Espera romper as barreiras
Que lhe roubam o infinito,
E assim abrir a clareira
Para seu voo mais bonito. Voar para dentro de si,
Na imensidão do desencontro
Que lhe fora morada. Sem temer a noite escura
Despir da veste, onírica loucura,
Com asas Alforriadas. José Regi

Translúcida

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Ela mergulha no lago da Iris
Silenciosa submerge sem rebojo
Sabe da sombra do arco-íris
Segredado no fundo do estojo Não revolve uma marola
Sob a galha seca do tempo
Sua sutileza até consola
A falta de voo do pensamento. Ela rompe com escuridão
Cheia de si inventa caminhos
Pela rota sinuosa da contra mão. Desfila sua exuberância quando flutua
Na crista do lago insone que mostra
A nudez luzida da Lua.
José Regi

A HISTÓRIA DE BELINHA

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A minhina é bela frô
A disfilá sua formusura,
Inocente num sonha amô
Ainda é cedo pressas frescura. O vento espaia us cabelo dela...
Laço de fita vermeia,
na oreia uma frô de ipê,
amarela Ela perambula pela vila
Bela de feitiço dobrado
Corre solta iguá passarinha
Sem sabê o que tá guardado. Corené cúbiça a frozinha
Para adorná seu jardim,
Mais qué ela suzinha
Nem mais um Passarim. Coroné é homi poderoso
Consegui tudo qui qué,
Cismou com a pobre minhina
Pra se sua muié. Frozinha bela num sabe
Das mardadi dos grandão
Por isso fica a vontadi
Sem guarida e proteção. Corené Faustino
Bode veio sem vergonha,
Já traçou o desatino
De fazê pesadelo do sonho. Os pai,dela gente humirde
Num tem cumo risisti,
O dinheiro compra tudo
Num adianta divergi. Feiz dizesseis primavera
A lorinha frô belinha
Sem sabê o que espera
O finar dessa linha. Um dia seu pai chamo,
Belinha vo ti conta
Ocê já é moça criada
E pricisa de casa. Coroné é homi bão
Viúvo e sem herdero
Me pidiu a sua mão
Veja só o entrevero. Nóis mora aqui na fazenda
Cria os…

Princípio Ativo.

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Era pra falar de amor, sem dor, sem odor.
Amor insípido, puro de carne sem toque,
Verbo virginal como o amanhecer de amanhã
Que ainda não sentiu a lascívia do sol. Era para ser, sem ter num plano etéreo
Platônico. Imaginado vivo como corte indolor.
Era pra ser amor e mais nada
Neste delirar nefasto que me consome. Mas que amor é este que faz sofrer
Que faz do homem criança arredia e chorosa
Pelos cantos da vida, pelas vias da solidão.
Que mundo é este que não tem cor? O que fizeram com a nobreza deste sentimento?
Arrancaram o jardim das flores e meteram cimento
Roubaram o encanto do azul, pintaram de cinza.
O imenso manto,descoloriram o firmamento. As ruas estão cheias de distâncias, sem sorriso.
Sem cortesia, sem nada e sem poesia.
Inventaram a loucura, as doenças sem curas.
Desertificaram os oásis... Secura. Não deixaram respostas, nem mapa, nem rota.
Impuseram a escuridão e roubaram a luz do fim do túnel
Apagaram o farol que Luzia o caminho
Cortaram a última rosa e deixaram o espinho. Enfim o silên…