domingo, 26 de agosto de 2018

Bilhete de Ida





Quando o relógio para,
A vida não ousa passos sem tempo.
O vento sopra a vela que alumia
A escuridão das veredas

Adentro o túnel sombrio
Ainda sinto o cheiro das manhãs
Que não chegarão
Aos meus olhos

Vestiram-me pra festa
Banharam meu corpo
Enfeitaram com flores de época
E embalaram pra entrega

Uma festa triste
Olhos orvalhados
Ambiente pesado
Parece que morreu alguém...

Fala-se em silêncio
Não tem musica
Todos vestem negro
E óculos escuros

Meu relógio marca exato
03h53min, hora do embarque
Entrei sentei e dormi
Agora... Não encontro o saída.

José Regi

sábado, 25 de agosto de 2018

Deliciosamente indecente


Tua boca
Tua língua me depura.
Em meu corpo
Insana desventura

Pele nua
Ardência
Descaminho
E cadencia

Na indecência da libido
Suga
Saliva
Atrevida

Queima
Geme
De calafrios
Treme

Encontra o trono
Senta suavemente
Neste reino
Que és dona.

José Regi


domingo, 11 de março de 2018

Sobre os desencontros




Quem dera fosse...
Um clarão na noite escura,
Para romper as conjecturas inúteis
Da imposição inquieta e absurda,
Destes opostos a semear lonjuras.

Quem dera fosse...
Aquele alforje de pedras, o bodoque moleque
Para quebrar as vidraças que lhe impede o sol
Adentrar a alma farta de sombras,
Onde arde a angústia atrás de um leque.

Quem dera ser...
O verso de luz a abrir-lhe a cortina
Invadindo as esquinas sem lua
Das suas ruas desertas
E encontrar ali aquela menina.

Quem dera seria...
A carta de alforria nestas vias abastadas de utopia
A fantasia de luz que falta as suas calçadas
Onde torces o pé tentando caminhar,
Sem a luminescência abissal da poesia.

Pondero...
Ser aquele grito abortado
Incauto, calado pelo silêncio da boca,
Onde  as mãos desenham saídas
Quase sempre perdidas
Além da folha de papel pautado,
Onde escrevo minhas rotas de fuga.

José Regi

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Obra inacabada





A pureza da pipa colorida
Pela ingenuidade empinada
Buscando equilíbrio no vento...

A crueldade do anzol que
Aprisiona e encarcera,
Limitando o nadar do peixe n’água...

A inquietude do pássaro
Cerceando o direito ao céu
Voando baixo no entorno da armadilha...

Os bichos assustados
Com o barulho sem sol
De um amanhecer chuvoso...

Nada de novo, de novo,
Nesta peça ensaiada
Executada como rotineira imperfeição.

Esta construção descomunal
Em se tornar o colosso exemplar,
Referencia de ninguém.

Somos uma base sobre a areia...
Na beira do mar tomba, arqueia,
Desmorona como um castelo de nuvens.

Às vezes temos asas
Noutras vezes rastejamos.
Mas nas vezes que voamos
Desejamos o pouso.

Onde pisas
E deixa rastros
Deixa um pouco do seu cheiro.

Viajante, passageiro...
Sendo flor de outro janeiro
Que entrou em fevereiro por teimosia.

És um jardim de folhas secas
Embrionado renascer,
Ainda por vir...

Enquanto hiberna o broto em preto e branco.
Nas cores de um foto dissonante e sem foco
Das viagens que já fez.

Ser o giz no quadro negro a rabiscar poesia
E a parte que lhe cabe
E o respeito que lhe diz...

Todo resto é insurreição
Fez ou não fez,
Isso pouco interessa.

A arte do silêncio está em observar quieto,
A pintura do universo
Ainda sem assinatura!


José Regi

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

O rito do fogo




Vestida de si, de cheiros.
Sedas e transparências,
Se desnuda em pelo
Ao apelo da carne... Sede.

Doce cadência
Nefasto Beijo
Fogo na boca
Lascívia, desejo.

Volúpia adensa
Ardência
Encandeia alma
Sussurros gemidos.

Na pele feromônio
Exala entrega
Suor, sua senda...
Alcova.

Tenra maciez ao toque
Devorador das mãos,
Rende-se anarquia da
Contumaz sedução.

Onde o verbo e carne
Se funde na alquimia do gozo,
No orgástico encontro
Inconsciente no sonho.

Bilhete de Ida

Quando o relógio para, A vida não ousa passos sem tempo. O vento sopra a vela que alumia A escuridão das veredas Adentro...