domingo, 11 de março de 2018

Sobre os desencontros




Quem dera fosse...
Um clarão na noite escura,
Para romper as conjecturas inúteis
Da imposição inquieta e absurda,
Destes opostos a semear lonjuras.

Quem dera fosse...
Aquele alforje de pedras, o bodoque moleque
Para quebrar as vidraças que lhe impede o sol
Adentrar a alma farta de sombras,
Onde arde a angústia atrás de um leque.

Quem dera ser...
O verso de luz a abrir-lhe a cortina
Invadindo as esquinas sem lua
Das suas ruas desertas
E encontrar ali aquela menina.

Quem dera seria...
A carta de alforria nestas vias abastadas de utopia
A fantasia de luz que falta as suas calçadas
Onde torces o pé tentando caminhar,
Sem a luminescência abissal da poesia.

Pondero...
Ser aquele grito abortado
Incauto, calado pelo silêncio da boca,
Onde  as mãos desenham saídas
Quase sempre perdidas
Além da folha de papel pautado,
Onde escrevo minhas rotas de fuga.

José Regi

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Obra inacabada





A pureza da pipa colorida
Pela ingenuidade empinada
Buscando equilíbrio no vento...

A crueldade do anzol que
Aprisiona e encarcera,
Limitando o nadar do peixe n’água...

A inquietude do pássaro
Cerceando o direito ao céu
Voando baixo no entorno da armadilha...

Os bichos assustados
Com o barulho sem sol
De um amanhecer chuvoso...

Nada de novo, de novo,
Nesta peça ensaiada
Executada como rotineira imperfeição.

Esta construção descomunal
Em se tornar o colosso exemplar,
Referencia de ninguém.

Somos uma base sobre a areia...
Na beira do mar tomba, arqueia,
Desmorona como um castelo de nuvens.

Às vezes temos asas
Noutras vezes rastejamos.
Mas nas vezes que voamos
Desejamos o pouso.

Onde pisas
E deixa rastros
Deixa um pouco do seu cheiro.

Viajante, passageiro...
Sendo flor de outro janeiro
Que entrou em fevereiro por teimosia.

És um jardim de folhas secas
Embrionado renascer,
Ainda por vir...

Enquanto hiberna o broto em preto e branco.
Nas cores de um foto dissonante e sem foco
Das viagens que já fez.

Ser o giz no quadro negro a rabiscar poesia
E a parte que lhe cabe
E o respeito que lhe diz...

Todo resto é insurreição
Fez ou não fez,
Isso pouco interessa.

A arte do silêncio está em observar quieto,
A pintura do universo
Ainda sem assinatura!


José Regi

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

O rito do fogo




Vestida de si, de cheiros.
Sedas e transparências,
Se desnuda em pelo
Ao apelo da carne... Sede.

Doce cadência
Nefasto Beijo
Fogo na boca
Lascívia, desejo.

Volúpia adensa
Ardência
Encandeia alma
Sussurros gemidos.

Na pele feromônio
Exala entrega
Suor, sua senda...
Alcova.

Tenra maciez ao toque
Devorador das mãos,
Rende-se anarquia da
Contumaz sedução.

Onde o verbo e carne
Se funde na alquimia do gozo,
No orgástico encontro
Inconsciente no sonho.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Claustro



A menina vestida de céu
Procura uma rota de fuga
Longe que seja ao léu
Ou para onde ninguém se conjuga

Espera romper as barreiras
Que lhe roubam o infinito
E assim abrir a clareira
Para seu voo mais bonito

Voar para dentro de si,amparada
Na imensidão do desencontro
Que lhe fora morada

Sem temer a noite escura despir das vestes
Com asas alforriadas
Onírica Loucura.

José Reg

Translúcida


Ela mergulha no lago da Iris
Silenciosa submerge sem rebojo
Sabe da sombra do arco-íris
Segredado no fundo do estojo

Não revolve uma marola
Sob a galha seca do tempo
Sua sutileza até consola
A falta de voo do pensamento.

Ela rompe com escuridão
Cheia de si inventa caminhos
Pela rota sinuosa da contra mão.

Desfila sua exuberância quando flutua
Na crista do lago insone que mostra
A nudez luzida da Lua.

José Regi

A HISTÓRIA DE BELINHA


A minhina é bela frô
A disfilá sua formusura,
Inocente num sonha amô
Ainda é cedo pressas frescura.
O vento espaia us cabelo dela...
Laço de fita vermeia,
na oreia uma frô de ipê,
amarela
Ela perambula pela vila
Bela de feitiço dobrado
Corre solta iguá passarinha
Sem sabê o que tá guardado.
Corené cúbiça a frozinha
Para adorná seu jardim,
Mais qué ela suzinha
Nem mais um Passarim.
Coroné é homi poderoso
Consegui tudo qui qué,
Cismou com a pobre minhina
Pra se sua muié.
Frozinha bela num sabe
Das mardadi dos grandão
Por isso fica a vontadi
Sem guarida e proteção.
Corené Faustino
Bode veio sem vergonha,
Já traçou o desatino
De fazê pesadelo do sonho.
Os pai,dela gente humirde
Num tem cumo risisti,
O dinheiro compra tudo
Num adianta divergi.
Feiz dizesseis primavera
A lorinha frô belinha
Sem sabê o que espera
O finar dessa linha.
Um dia seu pai chamo,
Belinha vo ti conta
Ocê já é moça criada
E pricisa de casa.
Coroné é homi bão
Viúvo e sem herdero
Me pidiu a sua mão
Veja só o entrevero.
Nóis mora aqui na fazenda
Cria os bicho,ara terra
Mói cana na moenda
Ele nunca feiz guerra.
Mais su ce num casá quele
Nois vai te qui ir imbora,
Procurá otros arqueire
Por esse mundão afora.
Intão mia fia Eu dei pirmissão
Ce num mi faiz essa afronta
Cedi prele sua mão
Que as coisas si apronta.
Belinha,frô alegre se fecho
Seu zoio si anuvio
Saiu disimbestada pelo prato
Lá pás banda do rio.
Triste à tardi fico
Quando a notiça viro falatório
Frô belinha afogo lá rio
Dispois de sabê do casório.
Era o fim da primavera
Pa frô mais bela que havia
Prifiriu intregá seu corpo a terra
Que ao destino e tirania.
Viro lenda nas campina
Todo inverno froresce.
Numa calendula pequenina
Frô belinha desmorrece.
José Regi

Princípio Ativo.


Era pra falar de amor, sem dor, sem odor.
Amor insípido, puro de carne sem toque,
Verbo virginal como o amanhecer de amanhã
Que ainda não sentiu a lascívia do sol.
Era para ser, sem ter num plano etéreo
Platônico. Imaginado vivo como corte indolor.
Era pra ser amor e mais nada
Neste delirar nefasto que me consome.
Mas que amor é este que faz sofrer
Que faz do homem criança arredia e chorosa
Pelos cantos da vida, pelas vias da solidão.
Que mundo é este que não tem cor?
O que fizeram com a nobreza deste sentimento?
Arrancaram o jardim das flores e meteram cimento
Roubaram o encanto do azul, pintaram de cinza.
O imenso manto,descoloriram o firmamento.
As ruas estão cheias de distâncias, sem sorriso.
Sem cortesia, sem nada e sem poesia.
Inventaram a loucura, as doenças sem curas.
Desertificaram os oásis... Secura.
Não deixaram respostas, nem mapa, nem rota.
Impuseram a escuridão e roubaram a luz do fim do túnel
Apagaram o farol que Luzia o caminho
Cortaram a última rosa e deixaram o espinho.
Enfim o silêncio grita saturado pela anarquia instaurada
Há um conflito eminente entre a alma lúdica
E a utopia do reencontro... Em vão
A boca pergunta onde estão?
Cadê, por que, aonde foi se esconder.
Aquilo que fazia flutuar só de olhar
Aquela efeméride perene e fugácea
Que durava uma eternidade.
A Dureza das pedras do leito agora seco no meu peito
Ainda suga a seiva verde do limo impregnado... Esperança
Que seja o amor ainda a resposta para as inquietações do homem
Quando este se entender mais humano.
Que cesse o que for profano
Que ele volte aos encantos sem dilema
Para abrandar minhas tormentas
E assim trazer respostas ao meu teorema.
Pois para o poeta,o amor ainda é o melhor tema!

Orgasmo

  Uma aventura louca no breu da noite a vivenciar... De tesão embevecido, hirto mergulho executou.   Águas placidamente ...