quarta-feira, 23 de julho de 2025

Saudade é tempo dizendo que não acabou

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  •  O amor é um espanto
  • Um escárnio vivo.
  • É vento soprando
  • Sobre encantos cativos.
  • Fogo de chama forte
  • Encandeia os sentidos
  • Dói como arame farpado
  • No tempo de ter vivido.
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  • Saudade é um escracho
  • E tempo tirando perfume
  • Do vaso de enfeite
  • Com flores de plástico.
  • Recende como incenso
  • Em tempo de pouco lume.
  • Em noites de pouco facho.
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  • Paixão é lenha seca
  • De fácil combustão
  • Dois corpos suados
  • Em noites de verão.
  • paixão que vira amor
  • Por certo vira saudade
  • Em tempo de adeus tardio
  • No átimo de uma maldade.
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  • Bom encontro é de dois
  • Já dizia a canção
  • Amor e paixão
  • é pra agora.
  • Saudade...
  • Saudade...
  • É pra depois.
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  • José Regi


sexta-feira, 6 de junho de 2025

Menino do olho azul



Jaz infanta estripulia.
Ainda cedo corria pra rua o menino,
Não sabia nada de limites
E o mundo lhe era um convite
a campear.
Explorar além do horizonte
Da janela da sala
Da cercania entorno
Da margem da velha estrada.
Olhos azuis de céu
Asas nos pés
Era quase um semideus
Com todos os seus “eus’
Ainda incubado
De voos e sonhos.
Cismas várias
Não eximia os anseios,
Havia de ser grande
Já previa a cigana
Que vendia engodos
em troca de migalhas
Na esquina da rua do centro.
Desbravador solitário
Num relicário de teimosia
Esculpido a força
No tempo.
Jaz infanta estripulia
Na sucursal de ontem
Das gerais do sul...
Hoje homem feito adulto
Inventa versos como indulto
Para proteger
aquele menino do
olho azul.
José Regi

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Enfim...

 



 

 

Dedico a vós o meu silêncio

A inquietude abismada

Dos meus versos

Esses voos ora preteridos

Deixo assim subentendido

Em pousos dantes...Arremetidos.

 

Vasto é a amplidão

Desse universo mudo

Eximido de eco

Ou retorno

Onde o exilio

É silente contuso.

 

Corto os punhos,

Dramático, patético

Suicídio poético

Antes, porém, rascunho

A sangue quente

A dor corrente

Na rubra tarde que cai

Aos pés da noite eterna.

 

Não tenho asas,

Nem pernas

Nem plumas

Ou penas

Que sentenciam o fim

No crepúsculo.

 

Há um último impulso

Antes da queda

Um último plano

Ante o medo da escuridão.

Respira afoito

Um derradeiro pulso...

 

Não há mais nada

Nunca houve,  

Nunca esteve.

Nunca foi...

Não há mais tempo!

Poema escrito

Sobre areia fina,

Só quem lê

É o vento.

 

José Regi

 

 

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

 


Fé é uma planta frágil

Regadas a gotículas

De esperança.

É acreditar no impossível,

No imponderável,

andar na contramão da lógica

Da realidade

e crer no invisível,

na onisciência,

No divinal.

 

Ter fé é cultivar

a ingenuidade

De uma criança,

A fragilidade

de uma mariposa no

Entorno da luz.

É entender possível

Quando tudo

Se mostra ao contrário.

 

Ter fé

É pegar no rosário e pedir

Como quem esfrega

Uma lâmpada mágica.

É não aceitar.

É a negação de si

Nas entrelinhas da sua

Própria incapacidade.

 

É acreditar numa utopia

Na poesia do inédito

No remédio amargo

No apelo ao vento

Ter fé é orar em silêncio

Durante um temporal...

Ansiar desvios,

Piquetes e atalhos

Na estrada da vida.

 

É a dureza do chão

A escassez do pão

É o calo das mãos

Ter fé é não ter explicação

É se nortear pelo íntimo

Se entregar a uma filosofia

É sacrifício de vida

Alienação, Aliança

E Abnegação

 

 

Ter fé é escrever torto

Em linhas retas

E não contestar.

Andar na contramão da seta

É ver razão e sentido

No projeto gêneses

É ter Deus...

E isso lhe bastar.

 

 

José Regi 28/11/24


sábado, 26 de outubro de 2024

Guardado

 



 

 

O que me prende não são cercas.

Acerca disso, encarcero-me.

Grades, gaiolas e asas de cera

No interior quase deserto de mim.

 

Tento a teimosia

Da brota, do florescer

Para assim ser

Pouso de insetos melíferos.

 

Nos outonos finais

Invento quimeras

Sobre folhas mortas

Soltas ao vento da estação.

 

No distante, não obstante

Uma araucária solitária

No estio cumpri (no imperativo)

Sua regra sina.

 

Livre de qualquer amarra

Arraigada,

Sentenciada

Ao lugar da queda.  

 

Eu que posso voar

Me prendo qual andrajos velhos

No arame farpado

No varal do tempo.

 

Sob calendários, agendas

Horários e itinerários

Ocultos nas entrelinhas

Das minhas utopias.

 

 

José Regi

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Delírios noturnos


 

 


 

Nunca provou o sal da barranca,

Ainda que em delírio houvesse

Mergulhos obscuros

Em águas mornas salobras...

Nunca lambuzou-me em teu suor.

 

Ainda que desejo fosse

Nunca tramou meu corpo

Em tuas teias sedosas,

Nunca acordou abruptamente

ao meu lado ofegante e molhada.

 

Sempre manteve o platonismo

E o egoísmo só pra si.


A volúpia é utopia

E a lascívia que imaginava

São devaneios de eras...

Um relicário profundo

Guardado no fundo

Do baú de quimeras.

 

Cartas de amor abortadas,

Amor monólogo unilateral

Num prólogo egoísta

Do seu eu...

Um dia que ela inventou

E que nunca aconteceu.

 

José Regi

sábado, 7 de setembro de 2024

Viajante

 


Um corpo dança ao som do relógio

Fitando o sol que não tarda a nascer

Presságio de luz no alto do pódio

Gaiolas abertas ao amanhecer

 

Aqui no lado de dentro do silêncio

Paredes brancas maculam-me a paz

Equilibro-me no arame fardado pênsil

No aguardo da brisa breve, mansa e fugaz

 

Um canto lírico ecoa no instante agora

A vida bate asas pela janela dos olhos

Pássaro de migragem se indo embora

Entre flores noturnas de época e afolhos

 

Apenas o canto livre das asas se ouve

No longe quase distante de tudo daqui

Encarcerado atrás dos caixilhos, ouse

Versar sobre avesso da fuga enfim...

 

Voos findos em oníricos oásis

Vida e morte, uma quase miragem

Entre o horizonte e a verticalidade

É o sono eterno ou seguir a viagem.

 

José Regi

 

premissa de primavera

    há um além que fica longe de mim. é lá nesse além aonde oculto as angústias.   lá é ermo e solitário, nem um pé de fel...